TravelVince News #48
🇹🇼 A outra China | The other China 🇨🇳
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Desde que cheguei em Taiwan, há um mês, tenho observado tudo com a intenção de contar como funciona um lugar que não é bem um país. Quanto mais vejo, vivencio e leio a respeito, mais difícil fica explicar.
Do ponto de vista humano, Taipé, a capital, é como um formigueiro: muita gente, sempre trabalhando ou fazendo alguma coisa. Todos respeitam os sinaleiros e as faixas de pedestres. No metrô, há filas para tudo, inclusive na frente de cada porta de vagão e nas escadas rolantes. Nos restaurantes, é sempre um atendente que te leva à mesa, serve água e mostra o QR code para fazer o pedido nos mínimos detalhes, inclusive se você quer que cortem a sobremesa em duas partes, caso vá dividir com alguém. Só vi educação civil assim no Japão.
Na história recente, essa ilha foi colônia japonesa por 50 anos. Depois da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, os nacionalistas chineses vieram para cá quando os comunistas tomaram o poder na China. O plano nacionalista era se fortalecer e retomar o governo de Pequim, algo que nunca aconteceu. Foram 40 anos de ditadura militar, período chamado de Terror Branco. Não se sabe se era pior viver com as loucuras de Mao Tsé-tung na China ou com a paranoia de Chiang Kai-shek em Taiwan. A pujante democracia taiwanesa só começou a se estabelecer em 1986!
Diria que Taiwan é um caldeirão cultural. Povos aborígenes, que povoaram várias ilhas do Pacífico, traçam sua origem aqui. Antes de os chineses chegarem a essas paragens, já havia fortes holandeses e espanhóis gerenciando o comércio local com Batávia (Jacarta, colônia holandesa, hoje Indonésia) e Manila, colônia espanhola (hoje Filipinas). Por ser um local perto da costa chinesa e longe das decisões de Pequim, virou um lugar perfeito de refúgio. Há muito da cultura de Fujian, a província chinesa mais próxima. Os japoneses colonizaram e trouxeram ferrovias, fábricas, escolas e hospitais. Cerca de 300 mil foram expulsos quando os nacionalistas chegaram, trazendo, no lugar, gente anticomunista de várias províncias do interior da China.
No Museu do Palácio Nacional, em Taipé, estão expostos artigos trazidos em 40 mil caixotes da Cidade Proibida, em Pequim, para cá. Foram itens preciosos escondidos dos japoneses que invadiram o norte da China e levados às escondidas para Chongqing, onde os nacionalistas lutavam contra a ocupação (junto com os comunistas, diga-se de passagem). Quando viram a situação ficando “vermelha”, os nacionalistas, junto com esse tesouro inestimável, vieram para cá. Alguns dizem que foi uma grande sorte para a cultura chinesa, já que, anos mais tarde, haveria a Revolução Cultural, quando boa parte do patrimônio histórico da China foi destruída.
Entre as aulas de mandarim, que foram ótimas, mas nem perto do suficiente, a rotina de lição de casa, academia e tarefas domésticas, conheci muito bem Taipé. Tive a impressão de que Taiwan é um país de uma enorme classe média. Meu apartamento fica em Datong, um bairro antigo, densamente povoado, que parece cenário de filme de Wong Kar-wai. Acordo diariamente com a senhora que vende café da manhã na frente da casa dela a partir das cinco da manhã. Às seis, tem a coleta do lixo, e às sete a pracinha está cheia de senhoras fazendo exercícios ou em suas cadeiras de roda, empurradas por cuidadoras filipinas ou vietnamitas. No dia em que cheguei, achei que fosse ser assaltado por alguma gangue nos muitos becos e vielas. Claro que não aconteceu nada. É um dos lugares mais seguros em que já vivi.
O que achei estranho é tudo ter um ar de anos 1980: dos edifícios às roupas das pessoas. Taiwan é tropical, um paraíso para comprar frutas no mercado (tem até jaboticabas), só que o calor e a umidade deixam tudo meio mofado, com manchas marrons. Há também terremotos frequentes. Acordei duas vezes com um chacoalhão na cama. Tive que ver na internet se era mesmo um terremoto ou se estava louco, já que a vida seguia normalmente.
O mandarim de Taiwan é muito parecido com o da China. O que torna tudo complexo é que usam os caracteres tradicionais, enquanto a China usa os simplificados. Nos anos 1950, para facilitar a alfabetização das centenas de milhões de chineses, os 500 caracteres mais utilizados perderam muitos traços. Alguns anos depois, foram mais de mil, junto com os radicais (sim, existem radicais de caracteres chineses). Isso fez com que a escrita em Taiwan, Hong Kong, Macau e comunidades chinesas mundo afora, sem contato com os comunistas, mantivesse a forma tradicional. Eu, que sabia ler cerca de 200 caracteres simplificados, quando abri o livro de gramática, voltei a ser analfabeto.
Mas voltando a falar de um lugar que não é bem um país (e que meus conhecidos daqui jamais leiam isto que escrevo): Taiwan não está nas Nações Unidas. Também não tem embaixadas ou consulados estrangeiros formais aqui. Apenas 12 países reconhecem a soberania de Taiwan, como Paraguai, Belize e Guatemala. Isso não impede que os 24 milhões de taiwaneses tenham passaportes e possam viajar sem visto para mais de 140 países. Também tomam suco de pêssego paraguaio. Nem isso os impede de ter sua própria moeda, bolsa de valores, domínio de internet (.tw) e eleições. Os dois principais partidos políticos se alternam: um é contra qualquer integração com a China; o outro é mais favorável a uma aproximação gradual.
O papel de Taiwan é essencial na economia mundial. Todos os celulares do planeta têm chips feitos aqui. Computadores também. Máquinas, robôs, servidores, navios, aviões e satélites também. A ilha conseguiu dominar a tecnologia de chips e semicondutores a ponto de fabricar 90% dos sistemas mais avançados e cerca de 70% dos comuns. Sem Taiwan, a gente volta para a Idade Média. Somando a isso todas as questões históricas — de quando e como a China teve soberania por aqui, de como foi o “divórcio”, se é que houve um, e de como apaziguar taiwaneses e chineses —, acho que nem os chips ultra-avançados da TSMC, com DeepSeek e ChatGPT juntos, conseguem resolver.
Demorei um mês para chegar à conclusão de que, quando o assunto é Taiwan, quanto mais sei, mais sei que nada sei. O que, sim, sei é que vou me concentrar em aprender apenas o mandarim da China comunista, que de comunista tem muito pouco. E é para lá que eu vou antes de voltar para o Brasil. Vou tomar banho de loja “comunista”, comer em restaurantes “comunistas” estrelados, admirar a arquitetura “comunista” de vanguarda em carros elétricos “comunistas” de última geração. Minha tia bolsonarista jamais acreditaria em quão bom pode ser o “comunismo” chinês.
🇬🇧 Since arriving in Taiwan a month ago, I’ve been observing everything with the intention of explaining how a place that isn’t quite a country actually works. The more I see, experience, and read about it, the harder it becomes to explain.
From a human perspective, Taipei, the capital, is like an anthill: lots of people, always working or doing something. Everyone respects traffic lights and crosswalks. In the subway, there are lines for everything, including in front of each train door and on escalators. In restaurants, there is always an attendant who takes you to your table, serves water, and shows you the QR code to place your order down to the smallest detail—even whether you want your dessert cut into two pieces if you’re sharing it with someone. I’ve only seen this level of civic behavior in Japan.
In recent history, this island was a Japanese colony for 50 years. After Japan’s defeat in World War II, Chinese nationalists came here when the communists took power in China. The nationalist plan was to strengthen themselves and retake the government in Beijing—something that never happened. There were 40 years of military dictatorship, a period known as White Terror. It’s hard to say whether it was worse to live with the madness of Mao Zedong in China or under the paranoia of Chiang Kai-shek in Taiwan. Taiwan’s vibrant democracy only began to take shape in 1986!
I would say Taiwan is a cultural melting pot. Indigenous peoples, who went on to populate many Pacific islands, trace their origins here. Before the Chinese arrived in these lands, there were already Dutch and Spanish forts managing local trade with Batavia (Jakarta, a Dutch colony at the time, now Indonesia) and Manila, a Spanish colony (now the Philippines). Being close to the Chinese coast yet far from Beijing’s decisions made it a perfect refuge. There is a strong cultural influence from Fujian, the nearest Chinese province. The Japanese brought railways, factories, schools, and hospitals. Around 300,000 Japanese were expelled when the nationalists arrived, bringing in their place anti-communist people from various inland provinces of China.
At the National Palace Museum in Taipei, artifacts brought in 40,000 crates from the Forbidden City in Beijing are on display. These were precious items hidden from the Japanese who invaded northern China and secretly transported to Chongqing, where the nationalists fought the occupation (alongside the communists, it’s worth noting). When they saw things turning “red,” the nationalists, along with this invaluable treasure, moved here. Some say this was a stroke of luck for Chinese culture, since years later the Cultural Revolution would destroy much of China’s historical heritage.
Between Mandarin classes—which were great but nowhere near enough—homework, gym routines, and daily chores, I got to know Taipei very well. I had the impression that Taiwan is a country with a massive middle class. My apartment is in Datong, an old, densely populated neighborhood that looks like a set from a film by Wong Kar-wai. I wake up every day to a woman selling breakfast in front of her house starting at 5 a.m. At six, the garbage collection comes by, and by seven the small square is full of elderly women exercising or sitting in wheelchairs pushed by Filipino or Vietnamese caregivers. On the day I arrived, I thought I might get mugged by some gang in the many alleys and backstreets. Of course, nothing happened. It’s one of the safest places I’ve ever lived.
What I found strange is that everything feels like the 1980s—from the buildings to the way people dress. Taiwan is tropical, a paradise for buying fruit at the market (they even have jabuticaba), but the heat and humidity make everything feel a bit moldy, with brown stains. There are also frequent earthquakes. I woke up twice to the bed shaking. I had to check online to confirm whether it was really an earthquake or if I was losing my mind, since life goes on as normal.
Taiwanese Mandarin is very similar to that of China. What makes things complicated is that they use traditional characters, while China uses simplified ones. In the 1950s, to improve literacy among hundreds of millions of people, the 500 most commonly used characters lost many of their strokes. A few years later, more than a thousand were simplified, along with their components (yes, Chinese characters have components). This meant that writing in Taiwan, Hong Kong, Macau, and Chinese communities abroad—without contact with the communists—retained the traditional form. I, who could read about 200 simplified characters, became illiterate again the moment I opened a grammar book.
But back to talking about a place that isn’t quite a country (and one I hope my local friends never read this about): Taiwan is not part of the United Nations. It also doesn’t have formal foreign embassies or consulates. Only 12 countries recognize Taiwan’s sovereignty, such as Paraguay, Belize, and Guatemala. That doesn’t stop its 24 million people from holding passports and traveling visa-free to more than 140 countries. They also drink Paraguayan peach juice. Nor does it stop Taiwan from having its own currency, stock exchange, internet domain (.tw), and elections. The two main political parties alternate in power: one opposes any integration with China, while the other favors a gradual rapprochement.
Taiwan plays an essential role in the global economy. Every mobile phone on the planet contains chips made here. Computers too. Machines, robots, servers, ships, airplanes, and satellites as well. The island has mastered chip and semiconductor technology to the point of producing 90% of the most advanced systems and around 70% of the more common ones. Without Taiwan, we’d be back in the Middle Ages. Add to that all the historical questions—when and how China held sovereignty here, how the “divorce” happened (if it even did), and how to reconcile Taiwanese and Chinese people—and I doubt even the ultra-advanced chips from TSMC, combined with DeepSeek and ChatGPT, could solve it.
It took me a month to conclude that, when it comes to Taiwan, the more I learn, the more I realize I know nothing. What I do know is that I’ll focus on learning mainland Chinese Mandarin—which is not very “communist” at all. That’s where I’m heading next before returning to Brazil. I’ll go on a “communist” shopping spree, eat at “communist” Michelin-starred restaurants, admire cutting-edge “communist” architecture in next-generation “communist” electric cars. My Bolsonaro-supporting aunt would never believe how good Chinese “communism” can be.









