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Confesso que fui um adolescente insuportável, que achava as aulas de História do Brasil um saco. Adorava a Suméria, os astecas e o Renascimento. Mas, quando o assunto eram as capitanias hereditárias, Canudos, a Farroupilha ou o Estado Novo, morria de preguiça. Teve um trabalho sobre Tiradentes, no qual tive que ler um livro (bem fininho) sobre a Inconfidência Mineira, que eu simplesmente não consegui entender nada. Em sala, fizemos o julgamento de Tiradentes, e só então ficou legal. Fui escolhido para ser o mártir e me fantasiei de Jesus*. Quando soube que meus amigos seriam enviados para Angola e eu seria esquartejado, comecei a gritar “injustiça!, injustiça!”, simulando um ataque epilético. A sala de aula virou uma baderna. Teve até gelo seco (pelo menos na minha imaginação). Acho que a professora nunca mais sugeriu tal atividade nos anos seguintes.
* Até antes da viagem, eu misturava na cabeça as histórias de Tiradentes e Aleijadinho com Jesus.
Com essa lembrança, encarei minha semi-ignorância ao visitar Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes e São João del Rei. Com a ajuda do ChatGPT, descobri Minas com olhos novos, tal qual um emboaba*. E foi fascinante. A Inconfidência foi contemporânea da Revolução Francesa. As reclamações que os brasileiros faziam da Coroa portuguesa eram muito parecidas com as dos americanos recém-independentes. Todo mundo tentava esconder um pouco de ouro da Receita Federal, inclusive dentro de santos ocos feitos de madeira. Por que pagar impostos tão altos? Pro quinto dos infernos, portugueses descarados! Esse quinto era 20% de taxa sobre o ouro** explorado nas Minas Gerais, muito mais alto do que o atual IOF de 3,5%.
*Emboaba é forasteiro na língua tupi e é como os paulistas, que se achavam os donos do pedaço, chamavam quem vinha de fora para explorar ouro | **Ainda hoje sai muito ouro do Brasil escondido, não mais em santos do pau-oco, mas em malas e contêineres. Matéria iluminadora na Piauí de agosto.
No dia em que parisienses acalorados invadiam a Bastilha em busca dos brioches da Maria Antonieta, em 1789, em Ouro Preto, a cidade mais rica da colônia, fazia frio, e Joaquim José, com vários compadres, confabulavam para mandar os portugueses embora. Alguém exclamou, com vocabulário de advogado sabichão: “Libertas quae sera tamen”, que Bárbara Heliodora* traduziu em língua nativa para “liberdade ainda que tardia”. Hoje a frase está na bandeira de MG, junto com o triângulo vermelho sobre fundo branco.
* Foi inconfidente, teve o marido enviado para o degredo e é uma das primeiras poetas nacionais.
As igrejas, os edifícios públicos, o casario eram uma cópia das vilas portuguesas. São muito mais antigos do que Hong Kong e São Petersburgo. O que chamávamos de História do Brasil nos anos 1980, que começa com a chegada de Cabral, sem contar os milênios de ocupação indígena, é bastante antigo. O Novo Mundo não é mais tão novo assim.
Eu só tinha visitado Minas para ir a Inhotim. Desta vez, foi uma imersão de seis dias, e me apaixonei pelo sotaque dos mineiros, pela simpatia das pessoas, pelo autêntico pão de queijo e pela mistura de cidades antiquíssimas com o modernismo de Belo Horizonte, a incubadora de Brasília. Os restaurantes da Savassi, bairro nobre de BH, esparramados pelas calçadas arborizadas, ficam cheios o dia todo. O melhor é que não precisa de visto nem de passaporte. Estou adorando (re)descobrir o Brasil.
RESTAURANTES DA VIAGEM
OURO PRETO
Tropea Cantina
Bené da Flauta
TIRADENTES
Mesquita
Lagar do Tragaluz
BELO HORIZONTE
Gata Gorda
Ninita
Maru
Terraço Niê
🇬🇧 I confess I was an obnoxious teenager who thought Brazilian history classes were a drag. I loved Sumer, the Aztecs, and the Renaissance. But when the subject was the Colonization, Canudos or the Estado Novo, I couldn’t care less. There was this assignment about Tiradentes, where I had to read a (very thin) book about the Minas Conspiracy, and I simply couldn’t understand a thing. In class, we staged Tiradentes’ trial, and only then did it get interesting. I was chosen to be the martyr and dressed up like Jesus. When I found out my friends were being sent to Angola while I was going to be cut in pieces, I started screaming “Injustice! Injustice!” pretending to have an epileptic seizure. The classroom turned into complete chaos. There was even dry ice (at least in my imagination). I think the teacher never suggested that activity again in the following years.
With that memory in mind, I faced my semi-ignorance when visiting Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes, and São João del Rei. With ChatGPT’s help, I discovered Minas Gerais with fresh eyes, like a true outsider. And it was fascinating. The Minas Conspiracy happened around the same time as the French Revolution. The complaints Brazilians had about the Portuguese Crown were very similar to those of the newly independent Americans. Everyone tried to hide a bit of gold from the tax collectors, even inside hollow wooden saints. Why pay such high taxes? To hell with it, shameless Portuguese!
On the hot summer day when Parisians stormed the Bastille looking for Marie Antoinette’s brioches, in 1789, in Ouro Preto—the richest city in the colony—it was cold, and Joaquim José, along with several comrades, was conspiring to kick out the Portuguese. Someone exclaimed, in pompous lawyer vocabulary: “Libertas quae sera tamen”, which Bárbara Heliodora translated into the native tongue as “liberty, even if late.” Today, that phrase is on the flag of Minas Gerais, along with a red triangle on a white background.
The churches, public buildings, and colonial houses were copies of Portuguese towns. They’re much older than Hong Kong or St. Petersburg. What we called Brazilian history back in the 1980s, starting with Cabral’s arrival and ignoring the millennia of Indigenous occupation, is actually quite old. The New World isn’t so new anymore.
I had only been to Minas to visit Inhotim. This time, it was a six-day immersion, and I fell in love with the Minas accent, the warmth of the people, the authentic pão de queijo, and the mix of ancient towns with the modernism of Belo Horizonte, the incubator of Brasília. The restaurants in Savassi, an upscale neighborhood in BH, spread across leafy sidewalks, stay full all day long. The best part is that you don’t need a visa or passport. I’m loving rediscovering Brazil.
Sempre muito gostoso ler suas experiências.
Obrigado
Abraço